50 anos sem Érico, mas ainda contando quem somos

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Livro “O Tempo e o Vento” aberto sobre mesa de madeira ao lado de retrato clássico de Érico Veríssimo e óculos de leitura, em luz suave e ambiente nostálgico.

O livro estava lá, esquecido na estante, entre volumes diversos, contas atrasadas e uma poeira que parecia ter se instalado definitivamente sobre a estante. Puxei o volume quase por acaso. Capa dura, lombada marcada, páginas amareladas. O Tempo e o Vento. E então vi a data na internet: cinquenta anos da morte de Érico Veríssimo. Meio século. E ele ainda ali, inteiro.

É curioso como alguns escritores morrem apenas biologicamente. Outros continuam vivendo nas cidades que descrevem, nos tipos humanos que criaram, nas frases que parecem ter sido escritas ontem. Érico é desses. Um autor que nunca teve medo de olhar para o seu tempo, mesmo sabendo que os tipos dessa sua época o olhariam de volta com desconfiança, crítica e ironia.

Ele escreveu sobre famílias, guerras, políticos, paixões, vaidades, covardias. Escreveu sobre o poder, sobre quem se dobra a ele, e quem tem brio de jamais se vender ao mesmo. Sobre a fé, e sobre quem dela se aproveita. Sobre o amor, e sobre quem foge dele. Tudo sem pose, sem afetação, sem aquele ar de escritor que escreve para outros escritores. Érico escrevia para gente. Para quem vive a realidade nua e crua.

Quando ergueu Santa Fé, no coração de O Tempo e o Vento, não levantou apenas uma cidade fictícia. Ele construiu ali um espelho do Brasil. Um país que nasce a partir de conflitos, heranças, disputas de família, jogos de interesse, pactos silenciosos, violências justificadas pelo discurso de sempre. Mudam-se os nomes, as roupas, os cargos, mas os mecanismos seguem assustadoramente parecidos.

Já em Incidente em Antares, ele resolveu fazer mortos saírem dos túmulos para cobrar dignidade dos vivos. Uma sátira que beira o absurdo, mas que talvez seja uma das radiografias mais perfeitas da nossa política, das nossas elites e das nossas omissões coletivas. Às vezes me pergunto se hoje seria mesmo necessário ressuscitar defuntos para denunciar injustiças, ou se estamos todos tão anestesiados que nem isso causaria mais espanto.

Érico não escrevia sobre heróis de bronze. Seu grande mérito foi transformar o homem comum em protagonista. A moça que sonha, o funcionário cansado, o político vaidoso, o idealista frustrado, o oportunista elegante. Ele entendia que a épica da vida não mora apenas nas grandes batalhas, mas no café esfriando na xícara, nas decisões pequenas que mudam destinos, nos silêncios que dizem mais do que discursos. E talvez por isso ele continue tão atual. Porque ainda somos muito parecidos com os personagens dele. Ainda atravessamos crises acreditando que são inéditas. Ainda caímos nas mesmas armadilhas. Ainda repetimos velhos erros com novas tecnologias.

Cinquenta anos depois de sua morte, Érico segue nos lembrando que o tempo passa; mas o vento, esse, insiste em soprar sempre nas mesmas direções se a gente não muda o rumo. Sua literatura não é confortável. Ela embala, mas também cutuca. Acolhe e expõe. Nos faz rir e, logo depois, nos constrange pelo riso.

Talvez esse seja o seu maior legado: a capacidade de nos fazer reconhecer no espelho da ficção, mesmo quando não gostamos do reflexo. Ler Érico é, de algum modo, aceitar que somos feitos de contradições. Que carregamos dentro de nós o autoritário e o libertário. O corajoso e o covarde. O justo e o conveniente. Hoje, quando tanta coisa parece rápida, rasa e descartável, voltar a ele é fugir do lugar-comum. Um convite ao tempo longo. À frase bem pensada. À história que não se esgota num parágrafo ou num post. Ler Érico exige pausa, reflexão, e talvez seja exatamente disso que este tempo anda mais carente.

Fecho o livro devagar. Sopra um vento leve pela janela. O tempo, esse, continua correndo como sempre. Mas enquanto houver quem leia, Érico seguirá fazendo o que sempre fez melhor: contar, com beleza e lucidez, a história de quem nós fomos, e insistimos em ser.


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Olá, eu sou Ari Jr

Sou escritor, blogueiro e viajante. Ser criativo e fazer coisas que me mantêm feliz é o lema da minha vida.

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