Tenho comigo uma coleção de LPs de vinil que já passou da marca dos quinhentos títulos. É uma pequena biblioteca de sons, empilhada em prateleiras, ocupando espaço no escritório e no coração. Ali, lado a lado, convivem discos de sertanejo raiz, como os de Tião Carreiro & Pardinho, dividindo espaço com Tonico & Tinoco, até concertos de música clássica, que trazem Beethoven e Villa-Lobos para dentro de casa. A diversidade é grande, e cada capa carrega um pouco de mim, como se fosse um retrato dos tempos, das fases, das emoções que fui vivendo.
Ter uma coleção de LPs é quase um ato de resistência. Num mundo em que tudo cabe na palma da mão, onde milhões de músicas estão disponíveis num clique, eu escolho o ritual mais lento: puxar a capa grossa da estante, retirar o disco com cuidado, soprar a poeira invisível, apoiar na vitrola e ouvir o estalo da agulha antes que a música comece. Há uma magia nesse pequeno ruído inicial, como se fosse um aviso: prepare-se, a viagem vai começar.
E essa magia não é só coisa da minha memória afetiva. O vinil, que muitos davam como morto desde os anos 1990, voltou ao topo das paradas. Dados recentes mostram que as vendas de LPs já superaram as de CDs em diversos países, inclusive nos Estados Unidos. No Brasil, o crescimento tem sido acelerado: lojas especializadas reaparecem, gravadoras relançam catálogos e até artistas novos investem em prensagens limitadas, que se tornam objetos de desejo entre fãs e colecionadores. É curioso pensar que aquilo que parecia ultrapassado voltou a ser moderno. O vinil, que já foi sinônimo de obsolescência, hoje é símbolo de autenticidade. Enquanto o CD, antes saudado como tecnologia futurista, foi engolido pelo streaming, o disco de vinil se ergueu do baú para se tornar quase um artigo de luxo. Quem diria que o “velho bolachão” se transformaria em objeto ‘cool’, disputado em feiras, sebos e até grandes magazines?
Mas a explicação talvez esteja no que o vinil representa. Ele não é apenas suporte de música: é experiência. O streaming nos deu acesso, é verdade, e não vou ser hipócrita em dizer que não o uso, no carro, nas viagens etc. mas ele também nos tirou parte do encanto. No Spotify ou no YouTube, pulamos faixas, montamos playlists, consumimos hits rápidos. No vinil, somos convidados a ouvir o álbum inteiro, como o artista planejou, faixa por faixa, lado A e lado B. É um convite à contemplação, não à pressa. Outro ponto é o charme visual. A capa do LP é um quadro que se pode segurar. Quantas vezes já me peguei observando as artes, as fotos e até os encartes com letras e fichas técnicas? Isso também educa: aprendi muito sobre compositores, arranjadores e músicos de estúdio folheando encartes. Hoje, esses créditos se perderam na invisibilidade dos aplicativos.
Há também a nostalgia. Para minha geração, o vinil traz de volta memórias de infância e juventude: as tardes de domingo na sala da casa dos pais, o chiado da vitrola emprestada, a capa surrada herdada de um tio. Cada disco carrega lembranças: o primeiro comprado com o próprio dinheiro, aquele ganho de presente de aniversário, o raro encontrado por acaso num sebo escondido. Para quem é mais novo, talvez o fascínio seja outro: descobrir um universo que parecia distante, mas que, de repente, virou tendência. E há a febre dos colecionadores, claro. Basta visitar um sebo ou uma feira de vinil para ver os olhos brilhando diante de raridades. O preço de alguns títulos disparou, e encontrar certas edições virou caça ao tesouro. Eu mesmo já vivi esse misto de frustração e euforia: sair de uma loja de mãos vazias num dia, e no outro encontrar aquele álbum que procurava há anos. A sensação é quase como ganhar na loteria, só que em notas musicais.
Curioso também é observar como o vinil uniu gerações. Vejo jovens comprando discos de artistas que seus avós ouviam, ao mesmo tempo em que bandas novas decidem lançar seus trabalhos em LPs coloridos, numerados, edições especiais. O passado e o presente se encontram no mesmo sulco, girando sob a mesma agulha. Isso tudo nos lembra de algo simples: a música não é só consumo, é experiência. E experiências verdadeiras pedem tempo, atenção, entrega. Enquanto tudo ao redor corre em velocidade digital, o vinil exige pausa. Exige que a gente se sente, escute, viva aquele momento.
Minha coleção, com seus mais de quinhentos volumes, é uma espécie de refúgio contra a pressa do mundo. Quando escolho um LP e o coloco para tocar, sinto que faço parte de uma corrente que liga gerações: os que vieram antes, que descobriram a música nesse formato, e os que virão, que talvez ainda descubram. E talvez seja essa a lição maior: na era da nuvem e da velocidade, o velho disco preto prova que a música, como a vida, não precisa ser sempre corrida. Às vezes, o que precisamos é apenas de uma agulha deslizando devagar sobre os sulcos da memória.










