Com grande pesar, soube da notícia do falecimento do Zezo (1953 – 2025). Esse era o apelido pelo qual todos se referiam a ele, que tinha o nome de José Valeriano Benatto. Raramente costumo ser específico assim nas minhas colunas, mas, esse é um caso à parte. Não porque Zezo fosse um multimilionário da cidade, ou, de família com sobrenome tradicional ou mesmo artista famoso nacionalmente ou por estes rincões. Nada disso: era uma pessoa simples, com hábitos corriqueiros como os nossos, conhecida apenas no seu círculo de amizades e influências. Mesmo assim, ele conseguiu se fazer notável comigo por ter consigo uma qualidade tão escassa atualmente: ser uma pessoa humana.
O ano era 1987. Zezo tinha seu bar, que também atendia como uma pequena mercearia no bairro Dois Córregos. Ali minha família fazia as compras do alimento necessário, e pagava mensalmente, com apontamentos feitos numa ‘cadernetinha’. Para os mais jovens, esclareço: o comprador e o dono do estabelecimento tinham, cada um, uma caderneta, ali, a cada vez que o comprador ia no estabelecimento, ambos marcavam o que era pego: arroz, feijão, ovos, e assim por diante. Final do mês, o devedor ia até lá, conferiam as cadernetas se as anotações batiam, tudo estando certo, o pagamento era feito, e aquelas folhas eram, ou arrancadas, ou rabiscadas, mostrando que essa parte estava paga. Sim, isso dificilmente daria certo hoje, pois dependia-se da hombridade e honestidade de ambos para essa operação ter sucesso.
Nosso consumo era alto, porque éramos em 07 pessoas. Eu, como caçula de 09 anos de idade, era o grude da minha mãe, e todas as vezes que ela ia até o Zezo, eu estava ao seu lado. Ali conheci os típicos frequentadores de bares: os falastrões, os beberrões, os mal-encarados, os boêmios e todo esse universo rico que os botequins duma cidade proporcionam. Para mim, era um verdadeiro passeio todas as vezes de ir até o bar do Zezo, e quem sabe, ganhar aquele doce de banana no copinho de wafer, meu preferido.
Mas, como nem tudo são rosas, uma notícia chegou pelo telefone do bar do Zezo e abalou minha família: meu irmão mais velho, com 29 anos à época, havia sido assassinado em São Paulo, Capital. Chegou para ele porque, minha família, desprovida às vezes dos mais básicos recursos para alimentação, não teria um telefone em casa, luxo que, então, custava o valor dum carro popular zero quilômetro. Pois bem, minha irmã mais velha, a única que ainda morava na capital, ligou para o Zezo e deu-lhe a notícia nefasta. E aí começou a demonstração de carinho da parte dessa alma tão nobre. Ele, que não tinha parentesco conosco e só tinha tratos comerciais, não tinha obrigação alguma de sequer dar andamento ao assunto. Mas, designou um garoto, coisa também muito comum então, para ir até nossa casa, e pedir que minha mãe fosse até o bar falar com ele. Assim que ela pode, estava lá, e ele, com muito tato, disse que minha irmã tinha ligado e dito que meu irmão havia sofrido um acidente e estava em estado crítico. Claro que isso, para uma mãe, é mais que suficiente para entrar em desespero. Mas, havia um impeditivo gigantesco para nós podermos ir até São Paulo e ver de perto o ocorrido: o dinheiro. Como eu já disse, os recursos em casa eram muito parcos, e uma viagem, assim, às pressas, mesmo de ônibus, era algo completamente inviável. E nessa hora, Zezo mostrou mais uma vez que tinha uma alma evoluída: sem perguntas, cobranças ou qualquer outro entrave, abriu a gaveta da caixa registradora, contou umas cédulas, entregou-as nas mãos de minha mãe, o que, em valores atuais, dava para ela ir e voltar comigo de ônibus sem sobressaltos, e antes de qualquer reação da minha mãe, vaticinou:
– Quando a senhora puder, a senhora me devolve, dona Maria.
Tenho quase certeza de que isso nunca aconteceu, e só sei dessa história porque fui testemunha ocular. Ele nunca cobrou, e nunca alardeou para ninguém seu gesto. Interpretou literalmente o que Jesus nos ensinou: o que sua mão direita fizer, que a sua esquerda não saiba. Fui com minha mãe para São Paulo, claro que lá a coisa ficou muito mais pesada, porque meu irmão já havia morrido, e ela teve de cuidar dos trâmites burocráticos dum funeral. Mas, o que poderia ser muito pior, foi atenuado pelo coração bom e atitude nobre dum gigante que passou pelas nossas vidas.
Agora ele também findou suas obras aqui na terra. Com certeza estas o encaminharam ao céu, porque foram um testemunho pétreo da bondade desse homem para com seus semelhantes. Que a viúva e os filhos, dos quais travei amizade por muitos anos, sejam consolados nesse momento de dor. E que o exemplo desse ser humano nos inspire a amar o próximo como a nós mesmos, o segundo maior mandamento. Em nome da minha família, também te agradeço, Zezo, e que você descanse em paz na eternidade gloriosa dos bons!

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