Quando eu era mais rapazinho, ouvi, e ainda tenho vontade de ter este LP duplo, do Renato Russo, intitulado “The Stonewall Celebration”. Lançado em 1994, é uma homenagem à Rebelião de Stonewall e um marco na música brasileira por ser um dos primeiros álbuns dedicados à celebração da cultura e resistência LGBTQIAPN+ no país. Ali, o líder da Banda Legião Urbana mostrou que era possível a interseção entre arte e ativismo, e inspirou novos artistas a serem autênticos e usarem sua voz pela diversidade, algo que continua relevante e necessário hoje. Assim, quero aproveitar o mês de junho, que é o Mês do Orgulho LGBTQIAPN+ para abordar alguns pontos dessa luta tão aguerrida e que ainda está em curso em muitos aspectos.
Há quase 56 anos, na madrugada de 28 de junho de 1969, um bar esfumaçado no Greenwich Village, em Nova York, se tornou o palco de um grito que ecoaria por décadas. O Stonewall Inn era mais que um bar: era um refúgio para drag queens, lésbicas, gays, pessoas trans e jovens expulsos de casa. Um lugar onde, por algumas horas, eles podiam ser quem eram, mesmo que sob a constante ameaça de batidas policiais. Naquela noite, porém, algo mudou. Quando a polícia invadiu o bar (como sempre fazia), a multidão não se dispersou. Não abaixou a cabeça. Pela primeira vez, revidou. Garrafas foram arremessadas, pedras voaram, e o clamor foi tão forte que durou seis noites. Stonewall não foi o primeiro protesto LGBTQIAPN+, mas foi o que incendiou o movimento moderno. Nos anos 1960, bares como o Stonewall eram templos clandestinos de existência. Não havia redes sociais, nem leis de proteção, só a solidão de quem vivia no armário e a coragem de quem ousava sair. A revolta de Stonewall nos ensina que ocupar espaços públicos é um ato político. Se ontem eram bares, hoje são as Paradas do Orgulho, as universidades, as assembleias legislativas.
Mas a lição vai além: Stonewall não foi sobre “pedir licença” para existir. Foi sobre tomar o espaço à força, porque direitos, muitas das vezes, não são concedidos, são conquistados. Foi uma rebelião liderada por pessoas trans negras e latinas como Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, mostrando que a luta LGBTQIAPN+ sempre foi interseccional.
Por aqui, nossos “Stonewalls” têm nome: o Ferro’s Bar em São Paulo, o Galeria Café em Recife, o Largo do Arouche, para citar alguns lugares onde a resistência se organizou na ditadura e no pós-AIDS. Hoje, as Paradas do Orgulho lotam avenidas, mas a pergunta permanece: quantos ainda têm medo de andar de mãos dadas na rua? A ocupação de espaços mudou de forma, mas não de essência. Se antes essa comunidade fugia da polícia, hoje marcham com megafones. Mas a violência persiste: o Brasil mata uma pessoa LGBTQIAPN+ a cada 14 horas (Grupo Gay da Bahia, 2023). Stonewall nos lembra que celebrar é preciso, mas revoltar-se também é urgente e necessário. Stonewall não é passado. Ele está presente sempre queum coletivo acolhe um jovem expulso de casa, ou quando artistas drag transformam o ‘mainstream’, ou mesmo quando a Justiça, mesmo às vezes tarde demais reconhece um nome social.
A revolta de 1969 nos ensinou que não há orgulho sem luta. E que, enquanto houver um corpo LGBTQIAPN+ sob ameaça, Stonewall não acabou, a batalha não está vencida, o inimigo maior, que atende pelo nome de preconceito, não foi completamente derrotado.
P.S.: No próximo artigo sobre esse tema, falaremos sobre como a cultura pop foi invadida (e transformada) pela ousadia LGBTQIAPN+. Até lá, que tal refletir: qual espaço você ocupa com orgulho — ou ainda tem medo de ocupar?
Esta publicação também está disponível no jornal A Tribuna, na edição do dia 03/06/2025, na página A3. Você pode acessar a versão em PDF pelo link: A Tribuna – Edição 13659.










O artigo aborda a importância histórica da luta LGBTQIAPN+ (tá virando sopa de letrinhas) e ressalta como o movimento de Stonewall foi um divisor de águas na busca por direitos e respeito. Concordo que reconhecer a história e dar visibilidade à luta contra preconceitos é essencial para uma sociedade mais justa.
No entanto, entendo que o desafio está em encontrar o ponto de equilíbrio entre liberdade e respeito mútuo. Respeito é via de mão dupla: não faz sentido exigir respeito se você não o oferece ao outro. Assim como sou contra qualquer tipo de agressão, também sou contra atitudes de “libertinagem” em público — independentemente da orientação sexual. Não acho saudável nem elegante ver pessoas “se esfregando” ou se agarrando nas ruas, seja um casal hétero ou homo. Eu mesmo não ajo assim com minha esposa e acredito que o bom senso deveria prevalecer para todos.
O artigo também cita a violência sofrida por pessoas LGBTQIAPN+, e, realmente, vivemos em um país perigoso para todos. Só para contextualizar: em 2024, tivemos 1.450 feminicídios no Brasil — isso é uma mulher assassinada a cada 17 horas. O número de homicídios em geral foi de 38.075. Parricídios (filhos matando os pais) são menos frequentes, mas acontecem, geralmente ligados a fatores psicológicos graves. Ou seja, nossa sociedade precisa de respeito e segurança em todos os sentidos, para todos.
Outro ponto que merece debate é a questão dos pronomes neutros, como o famoso “todes”. Falo português, uma língua que tem suas raízes em mais de dez países. Não faz sentido exigir que toda uma maioria mude a estrutura do idioma por conta da vontade de uma minoria. Inclusão deve ser buscada sem imposição, na base do diálogo, não da obrigatoriedade.
Tenho amigos homossexuais e os defendo, justamente porque me respeitam — assim como respeito suas escolhas. O segredo do convívio é simples: respeito mútuo. Quando isso existe, não tem espaço para mimimi ou extremismos de nenhum lado.
Agora quero ver o fogo no parquinho! 🔥
“Não a orgulho sem luta!”
#pride🏳️🌈🤍