No dia 22 de setembro, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior completaria 80 anos. Para muitos, a simples menção de seu nome já desperta lembranças de melodias que marcaram época. Gonzaguinha, como passou a ser conhecido, foi mais que o filho do rei do baião: foi um poeta da música popular brasileira, dono de um talento raro para traduzir as dores e alegrias do povo em versos que atravessam gerações.
Gonzaguinha não nasceu à sombra do pai apenas no sobrenome. Cresceu vendo Luiz Gonzaga transformar a sanfona em voz de um Brasil profundo, mas carregou por toda a vida o peso de provar que era mais do que herdeiro de uma lenda. E conseguiu. Criou uma identidade própria, distinta da do pai, e fez da palavra cantada a sua principal arma para refletir sobre o país, o amor e a condição humana.
Seus versos tinham algo de confissão e manifesto. Basta lembrar de O Que É, O Que É? quando ele canta: “Eu fico com a pureza da resposta das crianças / É a vida, é bonita e é bonita.” Há décadas, essa estrofe continua a ecoar como um lembrete de esperança em tempos difíceis. Era a forma que ele tinha de dizer que, apesar de tudo, a vida ainda merece ser celebrada.
Mas Gonzaguinha não era feito só de doçura. Era também conhecido pelo mau humor notório, às vezes até legendário, no trato com fãs e jornalistas. Muitos contam histórias de respostas secas, de encontros em que a simpatia ficou de lado, de uma impaciência que parecia contrastar com a delicadeza das músicas. Era como se a ternura estivesse reservada às canções, e não aos bastidores. Essa característica lhe trouxe fama de difícil, mas também revelava coerência. Gonzaguinha não tinha interesse em posar de astro ou manter aparências. Preferia ser honesto, mesmo que isso significasse parecer áspero. Num tempo em que a música servia também como trincheira contra a censura e a repressão política, não havia espaço para frivolidades. Ele brigou para ser ouvido, não por fofocas ou sorrisos fáceis, mas pela força das letras que escrevia.
E que letras! Começaria Tudo Outra Vez é uma das declarações de amor mais intensas da MPB. Grito de Alerta ainda soa como grito de dor dos desencontros afetivos. Em Sangrando, ele se abre em vulnerabilidade poética. Sua obra consegue abraçar a indignação social e, ao mesmo tempo, a intimidade dos afetos, como poucos compositores souberam fazer.
Além disso, Gonzaguinha teve um faro incomum para captar as pequenas lições do cotidiano. Suas canções são espelhos de vidas comuns: do operário, do estudante, do apaixonado, do sonhador. Quando escreveu “E aprendi que se depende sempre / De tanta, muita, diferente gente”, entregou ao público mais do que uma rima: ofereceu uma constatação de vida que ainda hoje soa verdadeira.
Para entender seu mau humor, é preciso lembrar que viveu boa parte da carreira sob a ditadura militar, com letras censuradas e shows vigiados. Carregava a tensão de quem usava a arte como resistência. Também lidava com o peso do sobrenome: ser “o filho de Luiz Gonzaga” trazia holofotes, mas cobrava seu preço. A cobrança constante para provar que tinha luz própria pode ter ajudado a moldar sua personalidade defensiva.
No entanto, o tempo costuma colocar cada coisa no seu devido lugar. O homem que partiu cedo, aos 45 anos, em 1991, deixou como herança algo que não envelhece: suas músicas. E é por isso que, passadas décadas, continuamos a cantá-las, descobrindo nelas novas camadas de sentido, como se fossem atemporais.
Aos 80 anos de seu nascimento, vale a pena reconhecermos que Gonzaguinha foi um ser humano de contrastes: capaz de emocionar multidões com a sensibilidade de suas letras e, ao mesmo tempo, de se mostrar ríspido diante do público. Essa contradição não diminui sua importância. Ao contrário, revela sua humanidade, feita de luzes e sombras, como a de todos nós. Celebrá-lo é lembrar que a música não é só melodia: é também consciência, poesia e resistência. Ele nos ensinou que a canção pode ser uma forma de protesto, mas também de ternura. E, acima de tudo, mostrou que a verdadeira grandeza de um artista está no que permanece depois de sua partida.
Hoje, quando suas composições ecoam em novos arranjos e continuam sendo regravadas, vemos que Gonzaguinha venceu o tempo. Deixou um legado cultural relevante, indispensável para compreender a música brasileira das últimas décadas. Mais do que um intérprete de sua época, foi um cronista da alma brasileira, com todas as suas dores, lutas, sonhos e esperanças. No fim das contas, é isso que fica. O homem, com seus acertos e falhas, passou. A obra, porém, ficou. E continuará a nos lembrar que é possível transformar inquietações em arte, palavras em melodia e sentimentos em canções que nunca deixam de nos tocar.









