O Brasil ficou um pouco mais sério, um pouco mais sem graça. Partiu Jaguar. Aos 93 anos, ele fechou o álbum de charges definitivo, deixando para trás não apenas uma saudade imensa, mas um legado que se entrelaça com a história do humor, da política e da cultura brasileira na segunda metade do século XX. Sua morte não é o fim de uma vida apenas, mas o fechamento de um capítulo crucial de como usamos o riso como arma, escudo e espelho.
Para as gerações mais jovens, que talvez o conheçam mais pelo seu icônico bigode e pelo status de lenda viva boêmia do que por sua obra, é importante contextualizar: Jaguar era um titã. Um daqueles raros artistas cuja criatividade ácida e coragem política foram fundamentais para furar o bloqueio do medo durante os anos do regime militar. Junto de gigantes como Millôr Fernandes, Ziraldo, Henfil e Paulo Francis, ele foi um dos pilares do que talvez tenha sido a publicação mais corajosa e inteligente que este país já viu: “O Pasquim”.
E é aqui, no território do ‘Pasquim’, que entendemos a essência do Jaguar e reacendemos a necessária e sempre desconfortável discussão sobre os limites do humor. O semanário era mais do que um jornal; era um território livre de resistência, um antro de irreverência intelectual onde a palavra era a única arma disponível para enfrentar a truculência do regime. E Jaguar era um de seus mais afiados atiradores.
Seu traço, aparentemente simples, era devastador. Ele não precisava de alegorias complexas ou metáforas obscuras. Sua genialidade estava na precisão cirúrgica de seu lápis. Com uma linha aqui e um balão de texto ali, ele desmontava generais, expunha a hipocrisia dos moralistas de plantão e ridicularizava a arrogante estrutura de poder. Era um humor ácido, sim, que queimava como pólvora, mas era, acima de tudo, inteligentíssimo. Não era o humor do deboche vazio, mas da crítica afiada, do questionamento necessário. Ele sabia que, às vezes, para fazer alguém refletir, você, antes, precisa fazê-lo rir, mesmo que seja um riso nervoso.
E isso nos leva à polêmica eterna: até onde vai o limite do humor? Jaguar, como todos os pasquineiros, era um mestre em pisar nos calos da santinha e do general. Seu humor não poupava instituições sagradas, figuras de autoridade ou convenções sociais. Era anárquico, irreverente e, para muitos, ofensivo. Mas é crucial entender o contexto: a ofensa era o método, não o fim. O objetivo maior era a liberdade. Em uma época em que se decretava o AI-5 e se calava a imprensa, o ‘Pasquim’ e o traço de Jaguar eram atos de bravura. Eles arriscaram a própria pele literalmente, para garantir que a piada, a sátira, a ironia, não fossem extintas.
Discutir os limites do humor hoje, olhando para a obra de Jaguar, é um exercício complexo. O mundo mudou, a sensibilidade coletiva evoluiu, e justificadamente, damos mais voz a grupos historicamente marginalizados. Piadas que antes passavam batidas hoje são escrutinadas. Jaguar mesmo, em entrevistas posteriores, admitiu que algumas charges, especialmente as que envolviam mulheres, talvez fossem desenhadas de outra forma hoje. Essa autorreflexão é parte da maturidade do humor. No entanto, apagar sua obra por não se enquadrar nos padrões atuais seria um erro histórico profundo. Jaguar deve ser lido e entendido dentro de seu tempo: como um guerreiro que usou as armas que tinha para lutar contra a maior das opressões que testemunhou.
Mas Jaguar não era só a charge política. Era também o boêmio incorrigível de Laranjeiras, o cronista do cotidiano carioca, o contador de causos que misturava o erudito com o popular na mesa de um bar. Seu humor também residia na observação sagaz da vida, nas manias brasileiras, no absurdo do dia a dia. Essa humanidade, essa ligação com a rua, com o cheiro de cachaça e o barulho do samba, era o que dava combustível para sua genialidade. Ele não estava em uma torre de marfim; estava no boteco da esquina, rabiscando no guardanapo a próxima piada que faria o país pensar e rir, muitas vezes, infelizmente, das próprias desgraças.
A cultura brasileira perde um de seus pais fundadores do humor moderno. Um homem que nos ensinou que rir é um ato de resistência. Que a piada pode ser profunda. Que desafiar o poder estabelecido com inteligência e um sorriso no rosto é uma forma de arte. Sua partida nos deixa a charge inacabada da nossa própria democracia. E nos obriga a fazer a pergunta: temos hoje a mesma coragem para rir e fazer rir, para criticar e satirizar, sem medo e sem crueldade? Jaguar deixa esse desafio de herança. Que honremos sua memória não com luto, mas com risos altos, críticas afiadas e, acima de tudo, com uma liberdade de expressão que ele ajudou, com muito risco e muito talento, a conquistar.
Descanse em paz, Jaguar. E obrigado por tanto riso inteligente.










