Talvez você também tenha passado por isso. Acordar, olhar a janela e perceber que, antes mesmo de o dia começar, o mundo já está meio torto. Não é tragédia, não é drama, é só uma leve sensação de que alguém mexeu na engrenagem da realidade enquanto a gente dormia. E aí tudo amanhece estranho. As pessoas falam alto demais, o motorista atrás de você buzina antes mesmo do semáforo mudar, o café esfria mais rápido que o normal. Pequenas anomalias. Micro absurdos. A vida parece escrita por um estagiário cansado numa sexta-feira, 16h30.
Eu não sei você, leitor, mas tenho colecionado dias assim. E, para não enlouquecer, inventei um manual de sobrevivência. Nada oficial ou científico. Um manual feito de observações que a gente coleta enquanto tenta não se perder do próprio humor, e que serve para mim, então, talvez o auxilie também.
A primeira regra é simples: desconfie das urgências. Metade do que chega como urgente é só falta de organização dos outros. A outra metade é ansiedade fantasiada de importância. É impressionante como tudo, hoje, parece ter de ser resolvido “pra ontem”. Mas, se a gente respira fundo, percebe que quase nada realmente explode se adiado por dez minutos. Às vezes, o mundo só quer empurrar a gente, e a gente empurra de volta, pronto.
A segunda regra: não se deixe levar pelo caos alheio. Tem gente que acorda com o espírito de furacão e insiste em arrastar o mundo consigo. São pessoas que chegam contando tragédias logo pela manhã, que largam problemas no seu colo como quem entrega folhetos na frente das lojas. O truque: devolva o folheto mentalmente. O caos dos outros é deles, e ninguém mais tem currículo para cuidar disso além dos psicólogos e dos santos.
A terceira regra poderia estar estampada em camisetas: revise suas expectativas sobre a humanidade. Não espere que as pessoas façam sentido o tempo todo. Aliás, em dias absurdos, espere o contrário. Vai ter quem reclame de calor com o ar-condicionado no máximo. Vai ter quem peça ajuda e brigue com o jeito que você ofereceu. Vai ter fila que não anda, e gente que não pensa, tudo assim. Normal. O segredo é não brigar com o que não tem intenção de melhorar.
A quarta regra talvez seja a mais difícil: proteja os seus pequenos rituais. Um café tranquilo, um trecho de música no caminho, o silêncio de cinco minutos antes de entrar no trabalho. É nesses minúsculos refúgios que a alma se reorganiza. Se você deixar, o mundo te leva até isso, e, sem esses rituais, a gente vai pingando irritação o dia inteiro.
A quinta regra: treine o olhar para o ridículo. Porque ele está por toda parte e, se a gente não rir dele, acaba enlouquecendo. Já vi um homem discutindo com uma máquina de autoatendimento porque ela “não o respeitava”. Vi também gente se esgotando para provar razão num comentário de rede social. É o teatro do cotidiano, com atores improvisados e roteiros inexistentes. Só assista, analise e sorria. É quase terapêutico.
A sexta regra fecha o manual: encontre abrigo nas pessoas certas. Sempre tem alguém que nos devolve ao eixo, seja um amigo, um amor, um parente, um livro. Dias absurdos não são vencidos, eles são atravessados. E, do outro lado, sempre tem alguém acenando com um sorriso cansado, mas sincero, dizendo: “ufa, sobrevivemos mais um”. No fim, a vida moderna é isso: sobreviver aos absurdos com o mínimo de dano e o máximo de lucidez possível. Aprender a rir antes de quebrar, respirar antes de responder. E descobrir que, às vezes, o manual não serve para arrumar o mundo, mas para lembrar que a gente ainda tem controle sobre uma coisa ou outra dentro de nós. E olhe lá! E, quando nada funcionar, há uma regra bônus, escrita a lápis, meio tremida: durma cedo e tente de novo amanhã. Porque talvez o estagiário que escreveu o roteiro do dia seguinte esteja mais inspirado. Ou, no mínimo, menos cansado.









