O TIRO, A TERRA E O CLIMA

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Tatu antropomorfizado com guarda-chuva observando contraste entre área urbana alagada e evento luxuoso da COP, simbolizando crítica social e ambiental.

Teodoro, o Tatu, estava quieto na sua toca, nos Cafundós do Judas, quando ouviu na estação de rádio comunitária uma notícia que fez até seu casco arrepiar: “Operação no Rio de Janeiro termina com dezenas de criminosos mortos. Autoridades comemoram sucesso da ação.”

— Sucesso? — pensou o Tatu, coçando o focinho. — No Brasil, quando o Estado faz o que devia fazer todos os dias, vira manchete tal qual um milagre!

Curioso, cavou até a superfície para entender melhor. Em poucos minutos, descobriu que a comoção nacional não era pela eficiência da polícia, mas pela “vitimização dos anjos delinquentes”, como alguns especialistas andavam chamando os rapazes armados até os dentes que, por coincidência, tinham um arsenal de guerra, dez passagens pela polícia e um canal no TikTok com dancinha de fuzil.

— Ué — disse Teodoro —, então agora quem impõe terror em comunidade é “vítima social”?

Uma senhora de turbante apareceu na televisão, explicando que tudo era culpa da desigualdade. Outro, de terno justo e indignação ensaiada, afirmou que o Estado era genocida. Já o apresentador do show de variedades chorava em câmera lenta, com trilha sonora triste, como se o Brasil tivesse perdido a partida e a seleção inteira numa prorrogação injusta. Teodoro ficou ainda mais confuso. No país onde o policial é acusado por acertar o tiro e processado se errar, a inversão moral virou rotina. “O Estado falhou”, diziam os analistas, tomando café gourmet em seus apartamentos com vista pro Leblon. Sim, o Estado falhou: falhou em chegar antes, falhou em dar educação, falhou em tirar o crime da mão dos políticos. Mas, por um dia, o Estado acertou o alvo, e agora o crime quer indenização por danos morais.

E enquanto isso, lá no Norte, outro palco se armava: Belém do Pará se preparava para sediar a COP30, o grande congresso das boas intenções ambientais. Teodoro, sempre interessado em cavar buracos novos, pensou: “Ora, se é pra falar de clima, nada melhor do que Belém, afinal, lá chove até dentro das casas!” Pegou seu guarda-chuva furado e partiu para o Norte, curioso com a capital que prometia salvar o planeta enquanto lutava pra tapar buracos e driblar esgoto a céu aberto.

Logo na chegada, Teodoro foi recebido por um mosquito e um buraco; ambos antigos habitantes da cidade. O mosquito cumprimentou:

— Bem-vindo, Tatu! Aqui o oxigênio é natural, mas a dengue é brinde!

A rua parecia uma maquete pós-apocalíptica: lixo empilhado, ônibus caindo aos pedaços e um sol que derretia até discurso de ambientalista. No caminho ao centro de convenções, viu operários apressados pintando fachadas de última hora, enquanto uma placa prometia: “Belém verde e sustentável.” Atrás da placa, um esgoto fumegava como caldeirão de bruxa. Mas, lá dentro, o evento era outro mundo: ar-condicionado glacial, coquetel orgânico e diplomatas de blazer leve falando sobre o “comprometimento das nações com o planeta”.

— Excelência — perguntou Teodoro ao Mandatário Supremo da Ordem e do Caos, que discursava no palco —, é verdade que o senhor veio de jatinho particular pra discutir emissão de carbono?

— Claro, Tatu! A primeira-dama veio antes, com sua comitiva, para preparar tudo para mim. Mas, fique tranquilo, o jatinho é elétrico… a energia vem de uma termoelétrica movida a carvão, um avanço!

— E as ruas alagadas da cidade?

— É o charme local, meu caro. Aqui chamamos de “mobilidade aquática”.

Teodoro quase se engasgou com o canapé vegano. O Brasil é tão criativo que transforma tragédia em turismo. No mesmo país onde a criminalidade tem advogado de causas humanitárias, o esgoto agora se chama “recursos hídricos não tratados”. Enquanto o mundo discutia aquecimento global, Belém fervia em outra temperatura: falta de saneamento, apagões, servidores sem salário e uma população que nem sabia direito o que era COP, pensando que era novo imposto. Lá fora, essa população atravessava as ruas com lama até o joelho, e lá dentro, ministros brindavam com água importada: “Ao futuro sustentável!” O mesmo futuro que, no caso brasileiro, costuma chegar de canoa — e furada.

De volta à sua toca, Teodoro refletiu: talvez o problema do Brasil não seja o crime, nem o clima, mas a mania de aplaudir o absurdo e discutir o óbvio com sotaque estrangeiro. O país onde o policial é vilão e o ladrão é vítima, onde o esgoto é tema de congresso e o congresso é um esgoto.

Antes de se enterrar novamente, Teodoro escreveu num papel amassado e pregou no poste da esquina:

“Enquanto a gente chorar pelos bandidos e brindar pelos hipócritas, o Brasil vai continuar entre tiros e enchentes, tentando salvar o mundo enquanto não consegue salvar nem a calçada da própria casa.”


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Olá, eu sou Ari Jr

Sou escritor, blogueiro e viajante. Ser criativo e fazer coisas que me mantêm feliz é o lema da minha vida.

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