Na minha casa sempre dormimos no escuro. Meu pai, por hábito e economia, apagava todas as luzes da casa (que nem eram tantas assim) na hora de deitarmos. Assim, gostando ou não, dormíamos no completo breu. Eu, assim como quase toda criança, tinha um medo danado disso. A mente livre das luzes e cores trabalha numa intensidade muito maior e cria personagens nem sempre agradáveis para nos fazer companhia nas noites insones. As feras e os monstros dos desenhos animados vistos pela manhã vinham todos para me assombrar, mostrando seus dentes afiados e aspectos horripilantes, o que me fazia cerrar os olhos com toda força, pedir para Deus me socorrer e buscar instintivamente a presença dela, sempre dela: a da minha mamãe querida.
Mesmo querendo se mostrar ser um “homenzinho”, daqueles que são corajosos e não choram, eu acabava por capitular e soltar um gemido no silêncio da madrugada, quase que implorando num sussurro: “mamãe, mamãe”. Ao que ela respondia, despertando quase que imediatamente: Eu estou aqui, Junior, pode dormir. Ouvir aquela voz doce e firme ao mesmo tempo, dissipava imediatamente a sombra dos aterrorizantes personagens, e me dava a paz necessária para enfim, pegar no sono. E a noite passava.
No entanto, a pior das horas não era o cair no sono no começo da noite. O momento onde eu mais me assustava era quando acordava, no meio da madrugada, com o diz quase amanhecendo, sem sono, num quarto de silêncio absoluto, onde eu ouvia o ressonar dos meus pais, e essa certeza de eu estar ‘sozinho’ neste momento, pois, na minha cabeça de moleque, ao estarem em sono profundo, eu estava totalmente desprotegido. E assim, automaticamente, os velhos ‘amigos imaginários’ começavam a me perturbar, e por mais que eu tentasse afasta-los dos meus pensamentos, tanto mais eles se faziam presentes, provocando suores e arrepios ao mesmo tempo. Mas, quando eu achava que eles venceriam essa peleja, a salvação sempre chegava: minha mãe acordava, para fazer a marmita do meu pai. O ato dela se levantar e acender a luz da cozinha para preparar o café e a refeição me davam uma paz, um alívio tão intenso, que o sono vinha automaticamente, e eu dormia em paz, sorrindo, embalado pelas músicas sertanejas que tocavam no rádio de pilha que mamãe carinhosamente batizou de “Samara”.
Hoje me peguei saboreando essa mesma sensação, a ponto de conseguir aqui escrever sobre ela, afinal, mamãe nunca soube desses meus medos, e nem do poder que ela tinha de acabar com eles pelo simples fato de acordar e se levantar. Ainda sonolento, antes do relógio me despertar, minha esposa se levantou para também se arrumar para o trabalho. Ao acender uma das luzes (sim, também dormimos com todas as luzes apagadas, herança econômica do meu pai), essa situação me veio na mente ainda entorpecida, e mesmo sem estar atormentado por nada, eu consegui sentir a mesma paz e segurança que sentia quando era apenas um garoto. Era como se eu tivesse sido transportado para a minha caminha naquela casa simples de quase quarenta anos atrás. Fechei os olhos, sorri e pensei: obrigado, mamãe, por sempre estar pronta pra me salvar de todos os perigos.
Uma saudade gostosa tomou conta de mim. Por isso dizem, e eu concordo mais do que nunca que, enquanto alguém é lembrado na mente de outrem, essa pessoa não morreu. Certamente mamãe continua viva, se não neste plano, num outro melhor, e mais ainda, na mente dos que ela amou incondicionalmente, iluminando nossos caminhos e protegendo-nos de todos os medos, sejam estes reais ou imaginários. Obrigado, querida, tenho certeza de que posso ficar tranquilo, pois, como sempre dizia, você está aqui.
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