“Pode a mulher esquecer-se do seu nenê, de modo a não se apiedar do filho do seu ventre?” — Isaías 49:15
A humanidade, em todas as suas esferas, é marcada pela dualidade entre a bondade e a maldade. Não sei se é impressão minha, gerada pela convivência com pessoas de boa índole desde a infância, mas, me parece que assistimos hoje a um crescimento galopante do “primeiro eu”. O fato é que, diante de tantas notícias ruins, fica difícil não sentir que a podridão moral contaminou todas as esferas de nossa vida, ainda que saibamos que há, sim, muita bondade existindo e sendo feita por um sem-número de seres humanos, mesmo que pouco noticiada, afinal, isso não é rentável, nem dá engajamento nas redes sociais.
Dentre as mais chocantes manifestações dessa frieza humana, está a da mãe que abandona, maltrata ou despreza o próprio filho. São casos extremos, monstruosos, que fazem com que a pergunta divina do profeta Isaías encontre, nalguns raros e trágicos exemplos, uma resposta positiva. Sim, há quem esqueça. Há quem realmente abandone.
Mas esses casos são exceções. A esmagadora maioria das mães vê nos filhos sua ‘Prole Sagrada’, a maior riqueza, a missão mais elevada da qual foram encarregadas diretamente pelo Divino. São essas as guerreiras que, mesmo diante de adversidades, seguem em frente. E é sobre elas, e sobre mais uma batalha que lhes é imposta, que quero falar.
A conquista da liberdade feminina foi dura e gradual. No início do século XX, uma mulher separada era malvista e sequer arrumava emprego. Nos anos 1960, veio a pílula anticoncepcional, libertando-a do papel de mera procriadora. Aprenderam e nos ensinaram que seu corpo também é fonte de prazer, e que isso não as faz menos dignas.
Hoje, a guerra mudou de cara, mas não de intensidade. Numa separação, o abandono raramente é aceito quando parte dela. Se o homem a troca, é naturalizado, afinal, era “sua propriedade”. Mas se é ela quem decide partir, o ego masculino se fere. E aí entram em cena as estratégias mais vis de humilhar e subjugar a mulher que não mais quis aquele homem. Os mais brutais partem para a agressão física, chegando ao feminicídio. Julgados por uma justiça lenta, com leis frouxas e majoritariamente masculina, muitas vezes estes saem impunes.
Outros, mais calculistas, optam pelo sufoco financeiro. Prometem ajudar com os filhos, juram não os abandonar, mas, movidos pelo ressentimento, cortam o apoio. Deixam a mulher, que na maioria das vezes já assume sozinha a criação dos filhos, à beira do desespero. E quando ela recorre a ex-companheiro, ainda ouve que “não consegue nada mesmo sem mim”. E, por fim, chego ao ponto mais cruel: o uso dos filhos como arma.
Há homens que, diante da independência financeira e emocional da ex-companheira, enxergam nas crianças o único ponto vulnerável. Sabem que ali reside todo o amor e toda a dedicação dessa mulher. E usam os próprios filhos como moeda de tortura. Não por amor a eles, mas por pura vingança.
O dano emocional causado nessas crianças é irreversível. São criadas sob o peso de um jogo sujo, um cabo de guerra afetivo que as deixam confusas, inseguras e emocionalmente feridas. Como pode um ser humano ser tão insensível a ponto de não se comover com o choro de um filho que pede pela mãe? Como pode o orgulho ferido ser maior que o amor paternal?
Muitos talvez argumentem: “Mas eu também quero meus filhos, quero cuidar deles”. E isso seria louvável se fosse verdade, mas, nesse caso, vemos que a intenção real não é cuidar. É punir. É mostrar quem manda. É usar a guarda como troféu e a pensão como castigo. E assim, unem-se a advogados inescrupulosos e partem para uma batalha judicial desleal. Do outro lado, resta uma mulher emocionalmente esgotada, financeiramente abalada e judicialmente encurralada. Ela teria motivos para alegar depressão, estresse, crises de ansiedade. Mas não o faz. Prefere lutar. E é por isso que vencerá.
Assim como as mulheres do passado venceram ao conquistar o direito de trabalhar, de sentir prazer, de ser donas do próprio corpo, as mães de hoje que são separadas à força dos seus filhos também vencerão. Cada uma dessas mulheres, empregadas, batalhadoras, orgulhosas e feridas, está escrevendo mais um capítulo dessa longa história de resistência, e são a prova viva de que o instinto de proteger a Prole Sagrada é mais forte que qualquer artifício machista cruel. E que, assim como Deus não se esquece de suas criaturas, Ele também não abandona essas mulheres, até porque, elas também são, Prole Sagrada.
Tenham certeza, guerreiras: vocês não estão sozinhas. Ele se apieda de vocês. E as livrará de todo mal. Amém.










