Sempre acreditei que escrever não é apenas organizar palavras, mas tentar entender o tempo em que estamos inseridos. Olhar para trás, nesse primeiro quadrimestre de 2025, é perceber que os textos que surgiram aqui não nasceram de um plano rígido, muito menos de uma pauta engessada. Eles nasceram da inquietação. Da observação cotidiana. Da tentativa, nem sempre bem-sucedida, de dar algum sentido ao caos, às mudanças rápidas demais e às repetições antigas demais que insistem em se travestir de novidade. Ao longo desses meses, transitei por temas culturais, sociais, educacionais, comportamentais e artísticos, mas, olhando agora com algum distanciamento, percebo que todos eles orbitam em torno de um mesmo eixo: o ser humano e suas contradições. Seja quando falamos de arte, política, fé, trabalho, linguagem, envelhecimento ou educação, o pano de fundo sempre foi o mesmo: a dificuldade que temos de lidar com a complexidade da vida sem reduzi-la a rótulos fáceis, slogans vazios ou soluções simplistas.
A cultura, por exemplo, apareceu como espelho e provocação. Ao revisitar artistas, movimentos musicais, fotógrafos, escritores e ícones populares, o que esteve em jogo não foi a nostalgia pura, mas a reflexão sobre legado. O que permanece quando o aplauso acaba? O que diferencia relevância de barulho? Em tempos de cancelamentos apressados e idolatrias descartáveis, discutir arte é, inevitavelmente, discutir coragem, responsabilidade e permanência. A arte que provoca, que incomoda e que sobrevive ao tempo quase sempre cobra um preço, e nem todo mundo está disposto a pagá-lo. Outro fio condutor evidente foi a discussão sobre identidade e pertencimento. Vivemos um tempo obcecado por classificações. Tudo precisa caber em caixas bem delimitadas, como se a vida fosse um formulário de múltipla escolha. Mas o ser humano não funciona assim. Somos paradoxais, incoerentes, mutáveis. E talvez seja justamente essa tentativa de nos forçar a escolher um “quadrado” definitivo que esteja nos adoecendo enquanto sociedade. Quando a pluralidade vira crime e a nuance vira ameaça, o diálogo morre e o conflito vira regra.
A educação, em vários momentos, apareceu como um problema estrutural que insistimos em tratar como pauta periférica. Discutimos acesso ao ensino superior, cotas, desigualdades, mercado de trabalho, formação básica e expectativas irreais. E o incômodo permanece: investimos tempo demais nos efeitos e pouco demais nas causas. Queremos resultados rápidos, estatísticas bonitas e discursos prontos, mas seguimos empurrando com a barriga aquilo que realmente transforma um país, a saber: educação de base sólida, contínua e despolitizada no sentido mais rasteiro do termo. Também houve espaço para falar de escolhas. Escolhas individuais, profissionais, morais. Vivemos cercados por opções, mas paralisados pelo medo de escolher errado. Tentamos ser tudo ao mesmo tempo, abraçar todas as possibilidades, agradar todos os públicos. No fim, corremos o risco de não sermos excelentes em nada. Escolher implica abrir mão, e essa talvez seja uma das lições mais difíceis de aceitar num mundo que vende a ilusão de que tudo é possível, o tempo todo, para todo mundo.
A fé, a linguagem e os símbolos também cruzaram esse caminho. Seja ao olhar para tradições religiosas, para o poder da palavra ou para tentativas modernas de reconfigurar o discurso, ficou evidente como linguagem nunca é neutra. Palavras moldam pensamento, constroem realidades e, quando mal utilizadas, também podem servir como ferramentas de controle, exclusão ou manipulação. Refletir sobre isso não é rejeitar mudanças, mas questionar imposições travestidas de virtude. Por fim, talvez um dos temas mais silenciosos, porém mais presentes, tenha sido o tempo. O tempo que passa, que cobra, que envelhece corpos e ideias. Falamos de etarismo, de envelhecer com dignidade, de memória cultural e de como a sociedade lida mal com aquilo que não é mais jovem, rápido ou descartável. Há uma pressa em substituir antes mesmo de compreender. E nisso, perdemos histórias, experiências e aprendizados que não cabem em vídeos de quinze segundos.
Essa retrospectiva não pretende fechar ciclos, muito menos oferecer respostas definitivas. Ela serve, antes, como um ponto de pausa. Um olhar sobre o caminho percorrido até aqui e sobre as perguntas que continuam abertas. Se algo ficou claro nesses primeiros meses de 2025, é que simplificar demais a realidade não nos torna mais inteligentes — apenas mais rasos.
Na próxima parte dessa retrospectiva, seguiremos aprofundando outros recortes desse mesmo período, ampliando reflexões e tensionando temas que ficaram à margem, mas que continuam pulsando no cotidiano. Porque pensar o presente, afinal, é um exercício contínuo. E parar de pensar nunca foi uma opção.









