VERDADE CARA, MENTIRA CLARA

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Cena de casamento em igreja, simbolizando aparência, farsa social e hipocrisia retratadas na crônica “Verdade cara, mentira clara”.

Na cidade onde os escândalos se vestem de gala e os pecados usam gravata, vive o senhor Álvaro Brandão. Empresário de renome, filantropo nas horas vagas e marido exemplar… ao menos nas colunas sociais. Seu nome é sinônimo de respeito, sua imagem, imaculada. E como toda figura pública que se preze numa cidade interiorana, Álvaro tem seus segredos. Ou melhor, seu segredo tem nome, endereço, curvas perfeitas e um sorriso que não aparece nas fotos oficiais: Clara.

Clara é jovem, bonita e inteligente o suficiente para saber que não há futuro com Álvaro, mas esperta o bastante para entender que o presente pode ser confortável num mundo de incertezas econômicas. O caso entre os dois já dura cinco anos, e todos os envolvidos, inclusive a esposa de Álvaro, dona Helena, senhora da mais absoluta honestidade e candura, fingem não saber. E fingem com a convicção de quem sabe exatamente o que está acontecendo, com nomes, datas e endereços, mas prefere o silêncio ao escândalo. Afinal, o dinheiro abundante alcança esse dom: transforma verdades inconvenientes em, quando muito, boatos discretos.

Dona Helena, mulher de fibra e de finas joias, descobriu o romance no décimo ano de casamento. Chorou, gritou, ameaçou, afinal de contas, casinhos, Álvaro sempre os teve, mas, com Clara a coisa já estava ultrapassando os limites, mais de dois anos juntos, e nada dele enjoar dessa garota. Depois, pensou melhor, com menos raiva e mais razão. E concluiu que a dor da traição era menor que o prejuízo de um divórcio. Desde então, vive em paz com a mentira bem costurada. Em troca, exige discrição, presentes caros e que Clara jamais apareça em público com Álvaro. Um acordo tácito, selado com diamantes e silêncio.

Mas eis que Clara, moça de carne e osso, começa a desejar algo mais do que tudo que já tem. Não amor, porque isso ela já sabe que não virá. Mas, status. Um sobrenome, uma fachada, deixar de ser motivo de cochichos em balcões de botequins, e passar a ser respeitada como a ‘senhora fulano de tal’. Álvaro, sempre pronto a resolver problemas com cheques e astúcia, decide então organizar o impensável: um casamento de mentira. O plano é simples, como todo plano que depende de dinheiro. Escolhe-se um noivo — um rapaz sem ambições, mas com dívidas. Convence-se o pai da moça, que sempre é um homem de moral flexível e contas atrasadas, tal qual o futuro noivo. E, claro, suborna-se o padre, que, entre bênçãos e boletos, aceita celebrar a união sem fazer muitas perguntas. Tudo milimetricamente orquestrado para que Clara se torne senhora de alguém, sem deixar de ser, de fato, senhora de Álvaro.

O casamento acontece numa tarde de sábado, com pompa e circunstância. Álvaro assiste da última fileira, ao lado de dona Helena, que sorri com a serenidade de quem sabe que venceu. Clara entra radiante, vestida de branco, como quem desfila sua vitória. O noivo, abestalhado e vendido, parece mais um figurante mal pago. O padre, entre um sermão e outro, agradece mentalmente pela reforma da paróquia que virá com o polpudo envelope recebido. A sociedade aplaude. A imprensa publica. E Álvaro respira aliviado. Clara agora tem um marido, um lar, uma desculpa. E ele, sua reputação intacta. Todos ganham. Ou quase todos.

O tempo passa, e a farsa se torna rotina. Clara vive com o marido de fachada, que passa mais tempo no bar do que em casa. Álvaro continua com sua vida dupla, entre jantares beneficentes e encontros discretos. Dona Helena, satisfeita, mantém o pacto. E a cidade, como sempre, finge não ver. Mas há algo que o dinheiro não compra: o imprevisto. Um dia, o noivo de fachada se apaixona de verdade. Não por Clara, obviamente, mas por uma garçonete do boteco onde afoga suas mágoas e fala mais do que deve quando alterado. Decide então pedir o divórcio, exigindo uma compensação pelo tempo perdido. Álvaro, furioso, tenta renegociar. Mas o rapaz, agora apaixonado e ambicioso, quer mais. Quer parte da fortuna. Quer contar tudo. O escândalo ameaça explodir. Dona Helena, ao saber, prepara os advogados. Clara, desesperada, tenta convencer o marido a manter o silêncio. Álvaro, pela primeira vez, percebe que o controle escapa por entre os dedos. E a cidade, sempre atenta, começa um burburinho sem precedentes.

No fim, tudo se resolve como começou: com dinheiro. Álvaro paga, cala, reconstrói. O rapaz desaparece, a garçonete ganha uma viagem, provavelmente acompanhada. Clara muda de cidade, alegando ‘novos planos de estudo e carreira’. Dona Helena, triunfante, exige uma nova ala no hospital que financia juntos com o marido, mas, com seu nome, certamente. Assim, essa pequena crônica de costumes termina como começou: com uma mentira bem contada. Porque, no mundo de Álvaro Brandão, a verdade é um luxo que poucos podem bancar. E o dinheiro, esse sim, é o único valor absoluto.

“Qualquer semelhança terá sido mera coincidência.”


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Olá, eu sou Ari Jr

Sou escritor, blogueiro e viajante. Ser criativo e fazer coisas que me mantêm feliz é o lema da minha vida.

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