No último sábado fui à Festa da Leitoa do Lar Franciscano de Piracicaba. Paguei meu convite, almocei, conversei com amigos e voltei para casa. Não fiz sacrifício extraordinário, não transformei a vida de ninguém sozinho e, muito menos, tenho mérito especial por ter estado ali. Ainda assim, saí pensando em como certas ajudas acontecem justamente assim: sem alarde, sem heroísmo e sem a pretensão de mudar o mundo inteiro de uma vez.
Além da venda dos convites, houve um leilão de itens doados por pessoas físicas e empresas, incrementando a arrecadação. Ali estava uma ideia simples: cada um oferece o que pode. Um doa um produto, outro dá um lance, alguém compra o convite, uma empresa apoia, uma pessoa oferece tempo ou serviço. Isoladamente, nenhum desses gestos parece capaz de mudar o destino de uma instituição. Somados, ajudam a manter portas abertas e projetos funcionando.
Há problemas grandes demais para caber nas mãos de uma pessoa só. Quando pensamos em crianças e adolescentes que dependem de acolhimento, proteção, orientação e oportunidades, é fácil concluir que qualquer contribuição individual é pequena diante da tarefa. Esse raciocínio, porém, pode virar uma perigosa desculpa: como não consigo resolver tudo, não faço nada. Instituições como o Lar Franciscano mostram o contrário. Muita coisa importante é construída pela soma de pequenas participações.
Existe aí uma responsabilidade do poder público que não pode ser transferida para a boa vontade das pessoas. A Constituição coloca Estado, família e sociedade como corresponsáveis pela proteção de crianças e adolescentes. Quando a estrutura pública não consegue atender a todas essas necessidades, organizações da sociedade civil e a comunidade acabam preenchendo parte dessas lacunas. A solidariedade não deve servir de desculpa para a omissão do Estado; serve para que uma criança não tenha de esperar a perfeição das políticas públicas para receber cuidado.
A festa também me fez pensar que solidariedade pode ter cheiro de comida boa, barulho de salão cheio e conversa em volta da mesa. Não precisa vir acompanhada de solenidade. Quem comprou seu convite provavelmente foi se divertir, rever conhecidos, colaborar e comer bem. E está tudo certo. O valor da ajuda não aumenta porque quem a deu faz cara de sacrifício. No Evangelho de Mateus há uma imagem de que gosto muito: ao fazer caridade, “não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”. Fazer o bem não precisa de plateia.
Também não é necessário que quem recebe saiba o nome de quem contribuiu. Não deveria existir dívida de gratidão nisso. Se o dinheiro arrecadado ajuda a manter um projeto, pagar uma despesa, proporcionar uma atividade ou oferecer melhores condições às crianças e adolescentes atendidos, o objetivo já foi cumprido. Gosto dessa solidariedade discreta, que não exige fotografia, agradecimento público ou reconhecimento.
Vivemos num tempo em que tudo parece precisar ser grande para chamar atenção. Grandes campanhas, grandes números, grandes histórias de superação. Só que boa parte da vida é sustentada por coisas menores e repetidas: alguém que comparece de novo no ano seguinte, outro que doa sem anunciar, uma empresa que oferece algo para um leilão, uma pessoa que separa algumas horas do seu tempo.
Saí da festa sem saber a quem exatamente ajudaria o dinheiro que deixei ali, e prefiro assim. Não preciso conhecer o nome da criança, nem ela o meu. Basta saber que, em algum ponto da cidade, existem pessoas trabalhando para que meninos e meninas encontrem cuidado, dignidade, oportunidades e razões para acreditar no próprio futuro. Ninguém precisa salvar o mundo. Às vezes, basta melhorar um pequeno pedaço dele para alguém.









