Esta semana celebro a chegada dos meus 48 anos. É um marco que, inevitavelmente, nos faz olhar para o retrovisor da vida, limpando o para-brisa da memória para enxergar com clareza as paisagens que ficaram para trás. Ao atingir essa idade, meu pensamento viajou direto para as ruas calmas e ainda na sua maioria de terra do Bairro Dois Córregos, aqui na nossa querida Piracicaba de meados dos anos 1980.
Minhas lembranças me levaram àquelas raras e valiosas ocasiões em que meu pai saía para passear comigo. Nessas caminhadas sem pressa, ele deveria ter um pouco mais da idade que carrego hoje, algo por volta dos seus 52 anos. No trajeto, o roteiro quase sempre se repetia: cruzávamos com um colega de trabalho dele, que passava os finais de tarde sentado em sua cadeira de cordas na calçada, vendo o tempo passar. Era o Sr. Joaquim, um homem bem branquinho, de cabelos já grisalhos e feições marcadas pelas décadas.
Eles se cumprimentavam cordialmente, às vezes até trocavam algumas palavras, mas o verdadeiro espetáculo começava alguns passos adiante. Meu pai, com aquele riso contido de quem preparava uma travessura, olhava para mim e fazia troça: “O Sr. Joaquim é quem é o seu pai de verdade, Junior, não eu”. Aquilo caía como uma bomba no meu coração de criança. O mundo desabava. Eu desandava a chorar ali mesmo, soluçando entre as lágrimas: “Não, não, o senhor é quem é meu pai!”. Ele caía na gargalhada, divertindo-se com a peça que vivia me pregando, enquanto eu passava o resto do caminho lamuriando e reafirmando o óbvio. Naquela inocência infantil, eu não entendia o porquê de tanta preocupação, mas uma certeza era absoluta: eu não queria ser filho de mais ninguém que não fosse o Sr. Ari, meu pai por direito e afeto.
Olhando para trás, essa recordação me desperta uma reflexão curiosa sobre a percepção do tempo. Naquela época, tanto meu pai quanto o Sr. Joaquim nos pareciam verdadeiros anciãos, homens maduros, imponentes, “senhores” na mais estrita acepção da palavra. Os homens dos anos 1980, com suas posturas rígidas, vestimentas sisudas e o peso do trabalho pesado na pele, aparentavam ser muito mais velhos do que realmente eram. Havia uma solenidade precoce no envelhecer.
Hoje, ao me olhar no espelho com os meus 48 anos recém-completados, percebo o quanto os tempos mudaram. Raramente sou chamado de “senhor” pelos mais jovens. E não digo isso indicando falta de respeito da parte deles. É que a linha que delimita a maturidade se estendeu, ganhou novas cores e uma leveza que a geração do meu pai não teve a oportunidade de vivenciar. Atualmente, guardamos o peso desse pronome de tratamento para quem já ultrapassou as barreiras dos 60 ou 70 anos e, ainda assim, muitos desses se apresentam com muita jovialidade envolvida. Vejo isso em minha sogra, a pessoa mais longeva com quem convivo, que completará 86 anos em 2026, com total independência física e psicológica, coisa rara de se ver há 40 anos.
A grande verdade é que o tempo não mudou o seu ritmo; nós é que mudamos a nossa forma de caminhar por ele. Envelhecer perdeu aquela carga de rigidez e ganhou contornos de celebração, de continuidade, não de fardo cada vez mais pesado.
Que esta nova idade não seja apenas a soma de mais um ano no calendário, mas uma oportunidade de encarar a vida com a sabedoria acumulada e o entusiasmo de quem ainda tem muitas calçadas para caminhar. A maturidade nos ensina que o corpo muda, os tempos se transformam, mas os laços que nos moldaram, como aquele orgulho infantil de ser filho do Sr. Ari, permanecem intactos, ecoando em quem somos hoje. Que saibamos viver o agora com a leveza do presente e o respeito sagrado pelas nossas raízes, para que o futuro seja tão promissor quanto esperamos e tentamos semear. Viva a vida!









