Ele não colecionava moedas, selos ou miniaturas. Nada disso.
O que João guardava eram fragmentos de vida, como ele mesmo definia: pequenos, despretensiosos, quase ridículos para quem visse de fora. Inclusive fora criticado por isso, nas raras vezes que mostrou seu tesouro a outras pessoas. Mas, para ele, cada objeto tinha um peso que nenhuma vitrine de museu conseguiria exibir.
Na primeira gaveta da escrivaninha, dormia um ingresso de cinema de 1998. A tinta já tinha virado um borrão, mas ele sabia exatamente de que filme era. Não se lembrava da trama inteira, claro, mas lembrava-se dela, a moça que se sentou ao seu lado por engano, pediu desculpas e acabou dividindo o pacote de pipoca e a vida. Casaram-se dois anos depois. Separaram-se quinze anos depois. O ingresso ficou. Não por saudade, mas porque certas coisas sobrevivem ao fim com uma naturalidade quase teimosa.
Havia também um guardanapo de bar, local que ele frequentava com assiduidade quase religiosa. Neste, em especial, constava um número de telefone escrito às pressas. Foi uma noite de música ruim, cerveja quente e conversa boa. O número nunca foi usado. No fundo, não sabia o que dizer se ligasse, e a chamada completasse. Mas, cada vez que ele via aquele rabisco azul, lembrava que, mesmo nos dias mais sem graça, o mundo ainda lhe oferecia algum tipo de encontro.
No fundo da mesma gaveta, repousava uma bolinha de gude verde, resgatada da infância como quem resgata um pedaço de sol. Ele lembrava da rua de terra, das tardes longas que pareciam não acabar e do amigo com quem disputava rodadas intermináveis. O amigo se mudou para outro Estado e o contato rareou, a rua virou asfalto, nem a casa que moravam já existia, ali agora era mais um condomínio fechado, e a bolinha, única sobrevivente daquele território perdido, virou um santuário portátil, uma corajosa sobrevivente, como ele.
Tinha ainda um bilhete amassado, escrito pela filha quando ela tinha sete anos: “Papai, te amo até onde a vista alcança”. Ele nunca soube por que ela escreveu aquilo. Talvez porque crianças sabem fazer poesia sem pensar muito, usando da sabedoria instintiva que nascem com elas e que os adultos podam aos poucos em nome das convenções. Hoje ela está adulta, corre o mundo, vive ocupada, responde mensagens quando dá. É o preço da independência afetiva. Mas, quando o bilhete cai de suas mãos, seus olhos ficam marejados, e ele sente que ainda há um fio invisível ligando aquele tempo ao agora.
João colecionava o que muitos de nós jogariam fora. E não era por apego ao passado, uma sanha acumulativa, nada disso. Era porque, no meio do tumulto dos dias, ele precisava de âncoras pequenas, discretas, que o lembrassem de quem ele tinha sido, de como ele havia sido construído, para continuar sendo quem era.
Num mundo que corre depressa demais, ele decidiu correr devagar. De vez em quando abria a gaveta, respirava fundo, tocava cada objeto, sentido a textura, relembrando o perfume e o contexto do momento vivido, como quem lê um texto que conhece de cor, mas que ainda o impressionava de forma única. E, embora nada ali tivesse valor de mercado, cada peça carregava um valor que não se mede em moeda: pertencimento. Era sua história, só sua.
Porque, no fim das contas, a vida não é feita de grandes feitos, e sim de pequenos instantes que, se a gente não guardar com cuidado, evaporam. E João sabia disso. Por isso, mantinha sua gaveta: uma espécie de mapa íntimo, sem norte marcado, mas cheio de caminhos para lembrar que existe beleza nas miudezas, e que quase tudo o que vale a pena na vida cabe dentro de uma caixa, de um bolso… ou numa memória aparentemente trivial.









