Não foi um assalto… Não foi um tiro… Foi apenas uma conversa atravessada no balcão da padaria… Alguém comentou que agora evita sair à noite. Outro respondeu que já não atende o telefone depois de certo horário, ou de DDD diferente do da sua cidade. Um terceiro confessou que mudou o trajeto diário por precaução. Nenhuma dessas pessoas havia sido diretamente vítima de um crime recente. Ainda assim, todas estavam reféns da mesma sensação: o medo que se instala antes do fato, que antecede a violência e molda comportamentos. O problema é que esse medo não surge do nada, e tampouco encontra respostas à altura.
Vivemos um tempo curioso, em que todos concordam que a violência é grave, mas ninguém parece capaz de enfrentá-la com seriedade. De um lado, discursos que prometem ordem pela força, como se o endurecimento retórico fosse suficiente para reorganizar a realidade. De outro, tentativas de relativizar o problema, tratando a criminalidade como um subproduto abstrato de desigualdades históricas, quase um tema teórico, distante da vida concreta de quem tranca portas mais cedo.
Enquanto os extremos disputam narrativas, o cidadão aprende a sobreviver no intervalo entre elas. O Estado, que deveria ser o eixo racional dessa equação, oscila. Falta coordenação, falta estratégia, falta continuidade. A cada crise, surge uma solução improvisada. A cada tragédia, um anúncio. O que não aparece é um plano capaz de atravessar governos, ideologias e mandatos, com metas claras, integração real entre União, estados e municípios e avaliação honesta do que funciona e do que fracassa.
O resultado é um país em alerta permanente, mas sem direção.
O medo passa a fazer parte da paisagem. Não é mais o susto ocasional, é a cautela constante. Ele se infiltra nas decisões simples: onde estacionar, que horas sair, quem confiar. E, quando o medo vira rotina, a democracia adoece silenciosamente, porque cidadãos acuados participam menos, debatem menos e esperam menos. Nesse cenário, 2026 se aproxima como mais do que um ano eleitoral. Será um teste de maturidade coletiva.
A segurança pública, que sempre aparece nos discursos de campanha, não pode mais ser tratada como slogan. Não é tema para palanque inflamado nem para silêncio constrangido. É uma questão que exige coragem política para romper dogmas, enfrentar corporações, rever modelos falidos e, sobretudo, abandonar a tentação de soluções fáceis. Nem a força bruta resolve sozinha. Nem a negação do problema o faz desaparecer.
Enquanto isso, nós, cidadãos comuns, também precisamos encarar nossa parte nessa equação. É confortável transferir toda a responsabilidade ao poder público, e ele, de fato, tem deveres inegociáveis. Mas a cultura da violência não se combate apenas com viaturas e leis mais duras.
Ela começa a ser enfrentada quando paramos de normalizar pequenos desvios, quando recusamos a lógica do “jeitinho” que mina a autoridade do coletivo, quando cobramos com constância, não apenas em ano eleitoral, quando escolhemos informação em vez de boato, diálogo em vez de ódio, participação em vez de resignação. Fazer nossa parte não é heroísmo. É compromisso cívico.
É entender que segurança pública não é pauta exclusiva da direita ou da esquerda. É uma necessidade básica, tão essencial quanto saúde e educação. É reconhecer que discursos vazios, de qualquer espectro, custam caro quando se transformam em políticas públicas improvisadas.
O medo dos cidadãos não pode seguir sem resposta. Não pode ser usado como instrumento político para ganhar votos do concorrente, nem varrido para debaixo do tapete ideológico. Ele precisa ser encarado com seriedade, técnica e humanidade. Não se pode prometer o irreal paraíso de Isaías, capítulo 06, mas também não podemos ser expulsos do lar por uma facção criminosa.
Talvez o primeiro passo seja simples e, justamente por isso, difícil: parar de fingir que alguém já tem todas as respostas prontas. Não tem. Mas há caminhos possíveis, desde que se tenha coragem de percorrê-los com menos bravata e mais responsabilidade. Porque um país que se acostuma ao medo acaba aceitando qualquer promessa que diga, ainda que falsamente, que vai livrá-lo dele. E isso, sim, é perigoso.









