No dia 20 de março de 1926 nascia, no Acre (lá mesmo, onde muitos acham que ninguém nasce, por nem existir), um homem que faria o Brasil rir sem se render à vulgaridade. José Vasconcelos, para muitos apenas “Zé Vasconcelos”, foi desses artistas que entendiam o humor como construção sólida para se passar sua mensagem, fosse esta crítica ou engraçada.
Em tempos em que o improviso virou desculpa para originalidade, e o choque virou método de surpreender a plateia, revisitar sua trajetória centenária não é apenas um exercício de memória; é também um convite à reflexão se é preciso apelar para o erótico ou o jocoso a fim de se ter sucesso.
Zé Vasconcelos, o pioneiro da ‘stand-up comedy’ no Brasil, subia ao palco com algo que hoje parece raro para os padrões atuais: um texto afiado, sem improvisações. Havia ritmo, havia pausa, havia observação. Ele falava do cotidiano, dos tipos humanos, das pequenas contradições da vida, fazendo isso com uma elegância que dispensava o recurso fácil do palavrão. Não porque fosse proibido, afinal, os espetáculos eram dentro de teatros fechados, com restrição etária, se fosse o caso, mas porque era desnecessário. O riso vinha pela identificação, pela inteligência da abordagem, e não pelo constrangimento.
E aqui talvez resida a diferença central entre aquele humor e boa parte do que se vê hoje.
Não se trata de saudosismo barato, como quem diz que “antes era melhor” por pura implicância geracional. A questão é mais sutil. O humor, como qualquer forma de arte, acompanha o seu tempo, e o nosso tempo é mais acelerado, mais ansioso e, sobretudo, mais ruidoso. A plateia de hoje não espera a construção da piada; ela quer o impacto imediato. E o impacto, muitas vezes, é mais fácil de alcançar pelo exagero, pelo constrangimento, pela quebra abrupta de limites. O problema é quando isso deixa de ser recurso e passa a ser dependência.
Há comediantes brilhantes na atualidade, sem dúvida, como havia medíocres no auge do sucesso de Zé Vasconcelos. Gente que pensa, escreve, observa e constrói. Mas há também um movimento perceptível em que o humor se confunde com uma espécie de teste de resistência da plateia: quem aguenta mais desconforto? Quem ri do mais extremo? Quem suporta o limite sendo esticado até quase arrebentar? Como eu posso chocar as pessoas aqui a ponto de o riso explodir?
Nesse cenário, esse riso muda de natureza. Ele deixa de ser espontâneo e passa a ser, em alguns casos, quase uma reação defensiva. Zé Vasconcelos fazia o processo contrário. Ele convidava. Não empurrava, seu humor era inclusivo no sentido mais genuíno da palavra: cabia na sala de estar, no rádio, no teatro, na família reunida no domingo. Não precisava segmentar público, nem escolher nichos. Ele falava com todos, e melhor, era entendido por todos. Isso, ao contrário do que parece, não é simplicidade. É sofisticação.
Talvez o maior equívoco da nossa época seja confundir liberdade com ausência de critério. O fato de tudo poder ser dito não significa que tudo precise ser dito daquela forma. O humor não perde força quando se impõe limites; ao contrário, muitas vezes ele ganha precisão. Escrever uma boa piada sem recorrer ao óbvio exige mais trabalho. Exige repertório, timing, leitura de mundo. Exige, em última instância, respeito pela inteligência de quem escuta. E é aqui que voltamos ao ponto inicial: o centenário de José Vasconcelos não é apenas uma data. É um lembrete.
Um lembrete de que o humor pode ser afiado sem ser agressivo. Pode ser popular sem ser raso. Pode ser memorável sem ser apelativo. Numa era em que todo mundo que grita cada vez mais alto para ser ouvido, talvez o verdadeiro diferencial esteja em quem sabe exatamente quando e como falar.
Porque, no fim das contas, fazer rir sempre foi difícil, exigindo inteligência e sagacidade. Mas fazer rir sem precisar constranger por certo é uma arte ainda maior e mais afiada.
E essa, José Vasconcelos dominava como poucos.









