Braços de merendeira

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Merendeira negra sorridente, com braços fortes e tatuados, servindo merenda escolar a crianças em uma escola, representando carinho, memória afetiva e lembranças da infância.

Eu seguia para o trabalho, numa dessas manhãs em que a cabeça já está no escritório antes mesmo de o corpo chegar, quando avistei uma senhora robusta, de braços desnudos e fortes. Não conhecia a mulher, não sabia seu nome, tampouco sua profissão. Mas aqueles braços me pareceram familiares. Eram braços de merendeira. Desses que pareciam feitos para erguer panelões, mexer arroz e alimentar uma fila de pequenos famintos. Ocorre que, em cada antebraço, ela exibia uma tatuagem. Ri sozinho e, logo em seguida, uma frase se formou na minha cabeça: “E agora os braços da merendeira são tatuados”.
Sei que merendeira não é um tipo físico e que braços fortes não determinam profissão. O curioso é o modo como a memória trabalha. A gente guarda certas figuras da infância como se fossem personagens de um álbum de fotografias: a professora diante da lousa, o motorista na direção do ônibus, a merendeira atrás do balcão. Não envelhecem, não têm folga nem gostos particulares. Ficam imóveis, à espera da lembrança. Quando menino, não me ocorria perguntar quem eram aquelas mulheres depois que a cozinha fechava.
Mas nem todas ficaram sem nome. A minha merendeira era dona Eva, senhora negra retinta, dona de um dos sorrisos mais acolhedores que já vi. Há pessoas que atravessam nossa infância e fazem questão de encontrar um lugar definitivo na nossa memória. Dona Eva era uma delas. E havia o seu cuscuz de sardinha. Não falo de um prato que se elogia e esquece depois do almoço. Falo de uma ansiedade maluca para que as festas juninas chegassem, e de um sabor que resistiu aos anos e que nunca mais encontrei igual. A infância tem dessas coisas: às vezes cabe inteira numa colherada.
Na escala de uma criança, uma panela grande já é um monumento; quem consegue movimentá-la parece possuir uma força extraordinária. No gesto de encher um prato e estendê-lo por cima do balcão havia uma autoridade tranquila. Dona Eva, para mim, ficou ligada às duas formas de alimentar: à comida que preparava e ao carinho que seu sorriso transmitia. Ainda me lembro dela com nitidez.
Pois bastaram duas tatuagens para desarrumar esse retrato antigo. Não eram as tatuagens, propriamente, que causavam estranheza. Há muito deixaram de ser exclusividade de marinheiros e roqueiros. O inesperado foi encontrá-las justamente naqueles braços que minha memória insistia em mantê-los limpos, só vestidos com um avental. Como se o passado tivesse saído da cozinha, escolhido um desenho, sentado diante de um tatuador e voltado para a rua sem me avisar. É espantosa a quantidade de coisas que continuam acontecendo enquanto estamos distraídos envelhecendo.
Depois me ocorreu que a graça estava menos naquela desconhecida e muito mais em mim. Passei anos acreditando, sem jamais pensar diferente, que as senhoras da minha infância já haviam nascido senhoras. Custei a perceber que também tiveram juventude, vaidades e paixões, muito além do meu pequeno mundo escolar. As mulheres de hoje, com suas tatuagens e suas escolhas, não precisam abandonar coisa alguma para se tornarem senhoras. O tempo muda a aparência de quem serve a merenda, mas também transforma o menino que a recebia. A diferença é que o menino demora mais para admitir.
A mulher seguiu seu caminho, alheia à crônica que acabara de esboçar na minha mente, com a qual agora tento entreter meu leitor. Eu segui para o trabalho, levando uma boa risada e uma lembrança inesperada. Não sei se aquela senhora algum dia entrou numa cozinha de escola. Sei apenas que, por causa de seus braços tatuados, reencontrei dona Eva, seu sorriso e aquele cuscuz de sardinha. A desconhecida, no entanto, trazia desenhos na pele. A minha merendeira deixou marcas na memória.


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Olá, eu sou Ari Jr

Sou escritor, blogueiro e viajante. Ser criativo e fazer coisas que me mantêm feliz é o lema da minha vida.

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