Em 1976, o cinema brasileiro ousou traduzir em imagens a prosa de Jorge Amado, e o país parou para assistir a um triângulo amoroso que desafiava não apenas a moral da época, mas a própria estrutura dos desejos humanos. Dona Flor e Seus Dois Maridos não é apenas uma história sobre o Recôncavo Baiano; é um tratado bem humorado sobre as fomes da alma e do corpo. Exato meio século depois, a indagação que move a personagem principal continua ecoando nas frestas dos relacionamentos modernos: até onde o marido “passivo”, o homem previsível e correto, é capaz de preencher os anseios de uma mulher?
Teodoro Madureira, o farmacêutico, é o símbolo da estabilidade. Ele não agride, não joga, cumpre os horários, é de uma cultura sólida, desfruta de um respeito quase sagrado da vizinhança e oferece a Flor a paz de um lar sem sobressaltos. Ele a sustenta fisicamente, ama-a com uma ternura quase paterna e a respeita diante da sociedade baiana detentora, no seu entendimento, da chave da moral e dos bons costumes. Para as regras do convívio social, seria o bastante. Mas a vida, essa criatura indomável que não cabe em planilhas ou receitas de farmácia, costuma cobrar uma taxa alta pelo excesso de calmaria. A pergunta incômoda que Jorge Amado sussurra ao leitor é se a segurança econômica e o afeto burocrático conseguem saciar a totalidade do ser da nossa protagonista. Ou se, no fundo de cada alcova silenciosa das mais diversas ‘Donas Flores’ no mundo, sempre faltará um “Vadinho” na vida e na cama.
Vadinho é o oposto do que se espera do marido ideal. É o cafajeste lírico, o homem que gasta o dinheiro da féria da mulher na roleta, que chega de madrugada exalando cachaça e perfume barato das mulheres com quem ficou, mas que possui a chave de um território que Teodoro sequer sabe que existe: o da entrega absoluta, o do desejo que não pede licença e que incendeia a carne. Flor vive o dilema de tantas mulheres reais que se veem divididas entre o altar e o abismo. Até onde se atura um homem que falha no caráter, em troca do que ele proporciona na intimidade?
A resposta de Jorge Amado é de um realismo fantástico avassalador: Flor precisa de ambos. A santidade de um não anula a necessidade da devassidão do outro. O erro da nossa herança cultural é tentar resumir a complexidade feminina a uma equação simples, onde o respeito anularia a libido, ou onde a paixão justificaria a ruína. De novo, esse binarismo teimoso nega que entre o preto e o branco existe um gradiente imenso de tons. Quando Flor convoca o fantasma do falecido para dividir o lençol com o atual esposo, ela não está cometendo um pecado de feitiçaria, mas um ato de manutenção da saúde psicológica. Ela compreende que o homem perfeito, aquele idealizado pelos manuais de bom comportamento, é uma ficção que empobrece a existência.
Há algo de melancólico nessa constatação. Mostra que o cotidiano engole o encanto e que a rotina, por mais confortável que seja, pode se transformar em uma prisão de cetim. O marido passivo atende aos anseios da estabilidade, mas falha na poesia do imprevisto. Sustentar, amar e respeitar são os alicerces, mas as paredes da intimidade exigem o calor do fogo, e o fogo não é domesticável, queimando, por vezes, mais fundo que o esperado.
No final, o que assusta a sociedade moralista não é a traição fantasmagórica de Dona Flor, mas a sua coragem de admitir que a integridade não basta quando a cama está fria. Nós nos acostumamos a aplaudir a previsibilidade e a condenar o excesso, esquecendo que o ser humano é feito de diversas camadas. Romper a ilusão de que um homem só pode preencher todas as lacunas de uma vida é o primeiro passo para uma maturidade dolorosa. Afinal, a realidade é crua e árida, e para suportá-la, às vezes, a gente precisa da solidez do farmacêutico durante o dia, e do fantasma do vadio para aguentar a madrugada.









