Existem instituições que funcionam como o sistema nervoso de uma cidade. Elas não apenas guardam o passado em arquivos que desafiam o tempo; elas processam quem somos para que possamos entender para onde vamos. Na última semana, ao acompanhar a posse da nova diretoria do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba (IHGP), no anfiteatro da Biblioteca Municipal, senti que não assistia apenas a uma formalidade administrativa, mas a um rito de renovação de compromissos com a nossa própria identidade.
A cerimônia marcou a passagem da medalha da presidência de Edson Rontani Júnior para Alexandre Sarkis Neder, amigos de longa data e companheiros de profissão. É curioso observar esses ciclos. Rontani entregou uma casa arrumada após enfrentar o vendaval dos últimos anos, período em que a preservação da memória exigiu resiliência e uma adaptação necessária ao mundo digital. Agora, Neder assume com o desafio — e o privilégio — de conduzir o Instituto rumo ao seu jubileu de diamante, em 2027, quando a entidade completará 60 anos de serviços prestados à nossa terra. Mas era visível em seu semblante calmo e alegre que toda essa responsabilidade só o alimentava para trabalhar ainda mais do que já fez até então.
O tom da noite foi de continuidade, mas com o frescor de quem sabe que a tradição só sobrevive se souber dialogar com o presente. Ao ouvir os discursos, percebi que os “novos ventos” não trazem ruptura, mas fôlego. A proposta da nova gestão em aproximar ainda mais a população da instituição é o caminho natural para um tempo que carece de pertencimento. O IHGP não pode ser uma ilha de intelectuais, um clube fechado, precisa sim ser o porto onde o cidadão comum ancora suas lembranças e reconhece sua história.
A chegada de novos membros, como os professores Odair Moral e Miguel Morano Júnior, reforça esse alicerce. Ver profissionais de áreas tão distintas unidos pelo zelo histórico prova que a memória é um esforço multidisciplinar. É a soma desses olhares que impede que a história de Piracicaba vire um simples boato perdido no vento. Agregar essa força nova a membros fundadores, como o Dr. Messias Galdino e a Professora Marly Perecin, faz com que a tradição se alie à modernidade, alcançando, com certeza, resultados palpáveis.
Os desafios do próximo biênio são claros: manter a relevância em meio à avalanche de informações descartáveis que nos atinge diariamente e transformar o vasto acervo do IHGP em algo pulsante para as novas gerações. O projeto de aliar tradição e inovação é ambicioso, mas vital para que a nossa “Noiva da Colina” não perca sua certidão de nascimento emocional.
Saí da solenidade com a convicção de que o IHGP está em boas mãos. Há uma serenidade no olhar da nova diretoria que mescla o respeito pelos que vieram antes, como o mestre Edmar José Kiehl, com o entusiasmo de quem tem muito a realizar. Se a cultura, como sempre defendo, é o que acende luzes, o Instituto segue sendo o nosso principal farol. Que esses ventos que agora sopram a favor ajudem a levar as velas da nossa história a águas ainda mais profundas e democráticas.









