Querer o Meu Não é Roubar o Seu

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Balança com duas camisas de tamanhos diferentes sobre mesa ao pôr do sol, simbolizando identidade, comparação social e a busca por uma vida que realmente faça sentido.

Há uma frase de Raul Seixas, na canção Novo Aeon, que sempre me pareceu mais profunda do que soa numa primeira audição: “Querer o meu não é roubar o seu, pois o que eu quero é só função de eu.” Em tempos de comparação compulsiva, inveja institucionalizada e competição por migalhas de validação virtual, talvez poucas linhas expliquem tão bem essa verdade: nem tudo o que serve para o outro serve para nós. Mas o ser humano, por alguma razão, tem enorme dificuldade em aceitar isso.
Vivemos observando vitrines alheias. O carro do vizinho, o cargo do colega, o casamento do amigo, o corpo do influenciador, a vida editada das redes sociais. Criou-se a sensação de que felicidade é uma espécie de produto escasso, como se o sucesso do outro automaticamente diminuísse nossas chances de alcançarmos algo parecido. E talvez seja justamente aí que Raul toque num ponto quase filosófico: o que é “meu” nasce das minhas medidas, dos meus desejos, das minhas limitações e da minha história. Não há lógica em tentar vestir a vida de outra pessoa.
Uso uma analogia simples, mas extremamente funcional. Eu uso camisa G3. É o tamanho que me serve. Não há qualquer sentido em eu invejar alguém que usa tamanho P. Mesmo que eu conseguisse tomar a camisa dele para mim, ela não me caberia. Ficaria apertada, desconfortável, inadequada. Ou seja: além de não resolver minha necessidade, ainda destruiria a do outro. A vida funciona de modo muito parecido.
Há pessoas feitas para determinadas rotinas, determinados sonhos, determinados caminhos. O sujeito que sonha em morar numa metrópole talvez definhe no silêncio do interior. Já outro, sufocado pelo caos urbano, encontra paz justamente numa cidade pequena, onde todos se conhecem pelo nome. Um deseja palco. Outro quer anonimato. Um encontra sentido no dinheiro. Outro, no tempo livre. E não há nada de errado nisso. O problema começa quando passamos a desejar não aquilo que nos realiza, mas aquilo que gera inveja nos demais. É diferente. Muito diferente.
Muita gente não quer necessariamente um carro de luxo; quer a sensação de superioridade que imagina vir junto dele. Não quer exatamente determinada profissão; quer o status que ela produz em reuniões de família ou redes sociais. É uma corrida exaustiva atrás de símbolos que, frequentemente, não dialogam com quem realmente somos. Talvez por isso exista tanta gente aparentemente bem-sucedida que está profundamente infeliz. Conquistaram vidas que admiravam à distância, mas que nunca foram desenhadas para caber nelas.
Existe uma paz enorme em compreender que a trajetória do outro não invalida a nossa. O sucesso alheio não é afronta pessoal. A felicidade de alguém não representa roubo de oportunidade coletiva. O mundo não funciona em sistema de fila única onde, se alguém prosperou antes, automaticamente nos condenou ao fracasso. Mas fomos educados para sempre competir. Crianças são comparadas na escola. Irmãos, dentro de casa. Funcionários, no ambiente corporativo. Tudo vira ranking. Tudo vira disputa. E, aos poucos, deixamos de perguntar “o que faz sentido para mim?” para perguntar “o que fará os outros me admirarem?” Essa troca cobra um preço alto.
Porque viver tentando caber na expectativa alheia é como insistir em usar uma camisa menor que o próprio corpo: no começo incomoda, depois machuca, e por fim impede até a respiração.
Raul Seixas entendeu algo que esquecemos no meio da pressa contemporânea: identidade não é concorrência. Cada pessoa carrega medidas existenciais próprias. Há sonhos que servem perfeitamente em uns e ficam ridículos em outros. Há destinos que combinam com determinadas almas e esmagam outras. Aceitar isso não é conformismo. É maturidade. É perceber que não precisamos impedir o crescimento do outro para encontrar espaço no mundo. Não precisamos diminuir ninguém para cabermos em nós mesmos. E, principalmente, não precisamos desejar a camisa alheia quando a nossa própria história já vem cortada sob medida.
No fim, felicidade tem menos relação com conquistar tudo e mais com descobrir o que, de fato, nos serve.


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Olá, eu sou Ari Jr

Sou escritor, blogueiro e viajante. Ser criativo e fazer coisas que me mantêm feliz é o lema da minha vida.

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