Relógio quebrado

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Menino assustado na cama durante a noite, observando um relógio antigo próximo da meia-noite, enquanto um rádio de época toca músicas sertanejas em um quarto dos anos 1980.

Hoje, muita gente procura o medo por diversão. Escolhe um filme de terror, apaga as luzes, aumenta o volume e espera que alguma criatura apareça atrás da porta. Há quem pague ingresso para levar sustos e ainda reclame quando não se assusta o suficiente. Eu, que conheci o pavor sem precisar de bilheteria, observo tudo isso com certa admiração.

Meu primeiro filme de terror, vejam só, era uma música sertaneja.

Na minha infância, minha mãe tinha o costume de deixar o rádio ligado antes de dormirmos. Sintonizava no programa do Fumaça, na Rádio Difusora aqui de Piracicaba, embalando nossas noites com aquelas modas que nos faziam companhia até a gente pegar no sono. Entre uma canção e outra, vez por outra surgiam Nestor e Nestorzinho cantando “Relógio Quebrado”. E o que deveria ajudar a dormir conseguia exatamente o contrário.

Diferentemente de hoje, quando escolhemos a próxima música com a ponta do dedo, o rádio decidia por nós. A história chegava sem pedir licença. Eu a acompanhava dividido entre a curiosidade de conhecer o desfecho e a vontade de que terminasse logo. Não havia como pular a faixa que me causava arrepios. O comando das mudanças das frequências estava com minha mãe, que às vezes, já ressonava pesado nessa hora.

A história falava de dois irmãos. José era homem de fé e fazia suas orações antes de se deitar. Durvalino, descrente, zombava da devoção do outro. Antes de partirem para caminhos diferentes, José deixou com o irmão um relógio que fora do avô. O objeto acabou parado na parede, sem funcionar. Até que, numa noite, resolveu dar doze badaladas. No dia seguinte chegou a notícia: José havia morrido precisamente à meia-noite.

Hoje consigo contar esse enredo sem perder o sono. Naquele tempo, porém, minha imaginação suprimiu qualquer sutileza: para mim, o morto vinha pessoalmente tocar o relógio quebrado. Um fantasma pontual, com compromisso marcado para a hora mais assustadora do dia. E, convenhamos, que necessidade teria um defunto de consertar relógios?

A questão religiosa também me intrigava. Eu ainda não era católico, mas a fé já fazia parte da minha vida. O embate entre o irmão que acreditava e o que ria das orações não era, para mim, apenas uma discussão. Havia algo solene naquela promessa de provar que existia outro mundo. Se o relógio tocava sozinho, quem poderia garantir que certas coisas não atravessavam a fronteira entre os vivos e os mortos?

E tudo isso acontecia justamente enquanto eu tentava dormir! Não havia imagem de fantasma, efeitos especiais ou trilha de suspense. Havia somente duas vozes sertanejas saindo de um rádio, o sono chegando e a cabeça de um menino trabalhando horas extras. A canção terminava, o programa seguia, mas meu visitante imaginário parecia não ter recebido o aviso de que a apresentação acabara e teimosamente, me assombrava até que o sono me vencesse.

Os filmes de hoje dispõem de maquiagem, portas que rangem e sustos calculados precisamente. O espectador sabe que, quando os créditos subirem, poderá acender a luz. Eu não tinha essa vantagem. Se o rádio continuava tocando no escuro, a história parecia continuar também. Meu terror não tinha tela, mas tinha trilha sonora. E, sobretudo, tinha hora marcada.

Décadas depois, posso até sorrir daquela aflição toda que senti. Continuo ouvindo música sertaneja, coleciono LPs e, curiosamente, ainda não tenho esse disco. A canção que mais me assustava nunca precisou ocupar espaço na minha estante. Bastou morar na lembrança.

Há músicas que devolvem amores, viagens e pessoas queridas. “Relógio Quebrado” me devolve minha mãe, o rádio ligado à noite e o menino que descobriu cedo a força que pode ter a nossa imaginação. Essa é a maior surpresa: o medo passou, mas a cena permaneceu.

O relógio da história estava quebrado. O que me espanta é perceber que, tantos anos depois, continua funcionando perfeitamente dentro da minha memória.

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Olá, eu sou Ari Jr

Sou escritor, blogueiro e viajante. Ser criativo e fazer coisas que me mantêm feliz é o lema da minha vida.

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